Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Frase
"Além das mulheres-fruta, o mundo está cheio de gente carambola: azeda, cheia de aresta e que se fatia todo pra parecer estrela". Rosana Hermann
Sexta-feira, Novembro 13, 2009
O apagão mental da oposição
A mídia, esse ente abstrato mas cuja ação é concreta e objetiva, está em campanha aberta pelo retorno do PSDB ao centro do poder. E entrou no ritmo do vale-tudo.
Eu mesmo já escrevi aqui que uma das táticas é a de anunciar o apocalipse. Só a tática do medo pode levar a população a procurar a salvação no passado, no caso, no PSDB e seus aliados.
A tática do apocalipse é simples: a cada problema (e governar é administrar problemas) que surge no país, o fim do mundo é anunciado e atribuído ao governo. Dias a fio. Horas e horas. E sempre o Armagedon tem um único culpado: o governo Lula e, de uns meses para cá, a ministra Dilma Roussef.
Você deve lembrar. A queda do avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, já foi atribuída ao governo. A gripe suína já foi atribuída ao governo. As enchentes em São Paulo (fruto da falta de planejamento do governo tucano e da lentidão da administração municipal), também já foram colocadas nas costas do governo federal.
Mas o crescimento econômico, o fato do país ter sido o último a entrar e o primeiro a sair da crise econômica, a elevação do país no índice de desenvolvimento humano ou o aumento brutal da credibilidade internacional do Brasil, nada disso é atribuído ao governo. Esses são, todos, frutos do acaso, da sorte, da proteção divina e das ações "da sociedade civil".
O fim do mundo "da hora" foi a queda no fornecimento de energia em algumas regiões do país.
Antigamente, a imprensa chamava aos cortes do fornecimento de energia elétrica como ocorrido em Itaipu, de blecaute. Assim mesmo, em português. O de agora, atingiu 18 estados com cerca de quatro horas de duração. Logo depois o sistema retornou operante e nenhum outro problema foi registrado.
Tecnicamente, não teve a ver com falta de investimentos ou falta de planejamento do governo federal, com abastecimento insuficiente, mas sim com a falibilidade dos sistemas e um incidente natural: tempestades fortíssimas fizeram cair a rede.
A politização do problema é do jogo, mas nesse curto-circuito a imprensa está com o dedo na tomada. No choque, viu a oportunidade de criar uma confusão conceitual e o blecaute passou a se chamar "apagão", para dar oportunidade à imprensa de usar uma fala recente da ministra Dilma Roussef, na qual ela dizia que o país não corria o risco de voltar a ter um "apagão" - no sentido de voltar a ter racionamento de energia, como há hoje na Venezuela. A fala da ministra foi amplamente divulgada como "prova" de que ela mentia.
Eu mesmo já escrevi aqui que uma das táticas é a de anunciar o apocalipse. Só a tática do medo pode levar a população a procurar a salvação no passado, no caso, no PSDB e seus aliados.
A tática do apocalipse é simples: a cada problema (e governar é administrar problemas) que surge no país, o fim do mundo é anunciado e atribuído ao governo. Dias a fio. Horas e horas. E sempre o Armagedon tem um único culpado: o governo Lula e, de uns meses para cá, a ministra Dilma Roussef.
Você deve lembrar. A queda do avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, já foi atribuída ao governo. A gripe suína já foi atribuída ao governo. As enchentes em São Paulo (fruto da falta de planejamento do governo tucano e da lentidão da administração municipal), também já foram colocadas nas costas do governo federal.
Mas o crescimento econômico, o fato do país ter sido o último a entrar e o primeiro a sair da crise econômica, a elevação do país no índice de desenvolvimento humano ou o aumento brutal da credibilidade internacional do Brasil, nada disso é atribuído ao governo. Esses são, todos, frutos do acaso, da sorte, da proteção divina e das ações "da sociedade civil".
O fim do mundo "da hora" foi a queda no fornecimento de energia em algumas regiões do país.
Antigamente, a imprensa chamava aos cortes do fornecimento de energia elétrica como ocorrido em Itaipu, de blecaute. Assim mesmo, em português. O de agora, atingiu 18 estados com cerca de quatro horas de duração. Logo depois o sistema retornou operante e nenhum outro problema foi registrado.
Tecnicamente, não teve a ver com falta de investimentos ou falta de planejamento do governo federal, com abastecimento insuficiente, mas sim com a falibilidade dos sistemas e um incidente natural: tempestades fortíssimas fizeram cair a rede.
A politização do problema é do jogo, mas nesse curto-circuito a imprensa está com o dedo na tomada. No choque, viu a oportunidade de criar uma confusão conceitual e o blecaute passou a se chamar "apagão", para dar oportunidade à imprensa de usar uma fala recente da ministra Dilma Roussef, na qual ela dizia que o país não corria o risco de voltar a ter um "apagão" - no sentido de voltar a ter racionamento de energia, como há hoje na Venezuela. A fala da ministra foi amplamente divulgada como "prova" de que ela mentia.
Qualquer pessoa bem informada sabe que o incidente de agora não tem parentesco com o patrocinado pelo governo tucano, em 2001, que marcou o início do racionamento de energia (apagão), trouxe prejuízos à economia e fulminou a chance de FHC eleger seu sucessor.
O apagão de 2001, que inaugurou o termo, foi sequela dos reservatórios baixos nas hidrelétricas, da escassez de investimentos em geração e transmissão e da falta de contingência. Até então "apagão" não era sinônimo de blecaute, mas designava o prenúncio de uma forte restrição no fornecimento de energia, um diagnóstico sistêmico de um problema que atravessava toda a estrutura de geração e distribuição de energia elétrica no país, levando a um intenso racionamento com graves conseqüências para a economia brasileira.
Na verdade, ficar horas sem energia elétrica em pleno século XXI por conta de um blecaute não é um “privilégio” do Brasil. Frequentes em países mais pobres, apagões atingiram recentemente milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa. O maior dos blecautes recentes, entretanto, aconteceu em 2005, na Indonésia, quando 100 milhões de pessoas ficaram até 12 horas sem energia.
O blecaute de 2009 não foi "apagão". Foi apenas um blecaute.
O blecaute de 2009 não foi "apagão". Foi apenas um blecaute.
Apagão mesmo está sofrendo a oposição. Uma espécie de, por assim dizer, apagão mental. Esse sim, irreversível.
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Inteligência no Twitter
Já comentei aqui que o Twitter é a nova lata de lixo da internet. E confirmo. Uma quantidade impressionante de bobagens, algumas disfarçadas de aforismos, prolifera ali sem qualquer mediação. 99,9% daquilo é puro dejeto humano, espécies de hai-kais nutridos a lactopurga. A proliferação da ferramenta parece favorecer aquela sensação ficcional e terrível de que estamos ouvindo tudo o que as pessoas pensam. E isso não poderia dar certo. Afinal, até mesmo os gênios só foram geniais pontualmente.
Mas, como para toda regra há uma contra-regra, ofereço para vocês algumas twitadas inteligentes de Walter Longo, consultor de marketing e um dos dirigentes do grupo NewComm, que reúne diversas agências de publicidade, com destaque para a Y&R, uma das maiores do país.
- Moral é uma uma reflexão sobre o próprio comportamento. Já o moralismo é sobre a vida dos outros.
- Estudiosos afirmam: numa grande empresa você tem mais chance de ser bem sucedido se errar de vez em quando do que se acertar sempre.
- Fala-se muito de mídia interativa, mas a maioria das pessoas quando está na frente da TV ainda prefere interagir com a geladeira!
- Ao ler um livro de suspense começo sempre pelo meio. Assim, fico curioso duplamente: como vai terminar e também como começou.
- Para polícia bandido é meliante, crime é delito, pessoa é elemento, carro é viatura e faca é instrumento pérfuro-inciso. Que língua é essa?
- Nobre deve ser a vida das pessoas, e não o horário da TV.
- Dizem que, para a mulher, o casamento significa trocar a atenção de muitos pela desatenção de apenas um. Há exceções.
- O futuro não está nos jornais. Na verdade, o futuro está nas coisas que não mudam. É na não-notícia que se percebe o que está por vir.
Mas, como para toda regra há uma contra-regra, ofereço para vocês algumas twitadas inteligentes de Walter Longo, consultor de marketing e um dos dirigentes do grupo NewComm, que reúne diversas agências de publicidade, com destaque para a Y&R, uma das maiores do país.
- Moral é uma uma reflexão sobre o próprio comportamento. Já o moralismo é sobre a vida dos outros.
- Estudiosos afirmam: numa grande empresa você tem mais chance de ser bem sucedido se errar de vez em quando do que se acertar sempre.
- Fala-se muito de mídia interativa, mas a maioria das pessoas quando está na frente da TV ainda prefere interagir com a geladeira!
- Ao ler um livro de suspense começo sempre pelo meio. Assim, fico curioso duplamente: como vai terminar e também como começou.
- Para polícia bandido é meliante, crime é delito, pessoa é elemento, carro é viatura e faca é instrumento pérfuro-inciso. Que língua é essa?
- Nobre deve ser a vida das pessoas, e não o horário da TV.
- Dizem que, para a mulher, o casamento significa trocar a atenção de muitos pela desatenção de apenas um. Há exceções.
- O futuro não está nos jornais. Na verdade, o futuro está nas coisas que não mudam. É na não-notícia que se percebe o que está por vir.
Caetano, go home!
Em entrevista à jornalista Sonia Racy, o cantor e compositor Caetano Veloso anunciou sua opção pela candidatura de Marina Silva, a senadora que se elegeu pelo PT e recentemente filiou-se ao PV. "Não posso deixar de votar nela", disse o cantor. "Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla. É inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro."
Caetano quer ser polêmico. Aliás, Caetano quer ser intelectual. Já quis ser cineasta, escritor, pintor. Fracassou em todas essas empreitadas. Deveria ser humilde e voltar a fazer o que gerou sua fama e fortuna: deveria voltar a ser cantor e compositor. Mas isso não é fácil. O moto contínuo da juventude não existe mais e a experiência da terceira idade o inquieta. Para ganhar o centro da cena, ataca quem tem o que ele não tem mais: popularidade. No caso, o presidente Lula.
A última grande obra de Caetano foi o álbum "Estrangeiro", lançado no distante 1989. De lá para cá, álbuns medíocres, nulidades sonoras, covers e mais covers, alguns absolutamente desnecessários como os das músicas descartáveis de Peninha, Fernando Mendes e Claudinho e Bochecha. Profissionalmente, travou. Politicamente assumiu seu conservadorismo direitista, aliás já revelado em sua ótima relação com Toninho Malvadeza, o coronel baiano também conhecido como Antonio Carlos Magalhães.
Fui ao último show de Caetano em Belém, na Assembléia Paraense e sai quando o "espetáculo" já consumira meia hora de minha preciosa vida. Eu esperava muito, mesmo que parecesse ser modesto. E sai com quase nada. Um lixo.
Displicente, desrespeitoso, Caetano sub-tona, desafina, bate nas cordas de naylon de seu violão como um pedreiro desbasta tijolos e é acompanhada de uma banda de aprendizes, todos jovens moços, bem ao gosto do baiano.
O PT não fez bem em oficializar uma resposta a essa provocação de um artista decadente. Deveria, simplesmente, deixá-lo imerso em sua triste agonia do fim.
Caetano quer ser polêmico. Aliás, Caetano quer ser intelectual. Já quis ser cineasta, escritor, pintor. Fracassou em todas essas empreitadas. Deveria ser humilde e voltar a fazer o que gerou sua fama e fortuna: deveria voltar a ser cantor e compositor. Mas isso não é fácil. O moto contínuo da juventude não existe mais e a experiência da terceira idade o inquieta. Para ganhar o centro da cena, ataca quem tem o que ele não tem mais: popularidade. No caso, o presidente Lula.
A última grande obra de Caetano foi o álbum "Estrangeiro", lançado no distante 1989. De lá para cá, álbuns medíocres, nulidades sonoras, covers e mais covers, alguns absolutamente desnecessários como os das músicas descartáveis de Peninha, Fernando Mendes e Claudinho e Bochecha. Profissionalmente, travou. Politicamente assumiu seu conservadorismo direitista, aliás já revelado em sua ótima relação com Toninho Malvadeza, o coronel baiano também conhecido como Antonio Carlos Magalhães.
Fui ao último show de Caetano em Belém, na Assembléia Paraense e sai quando o "espetáculo" já consumira meia hora de minha preciosa vida. Eu esperava muito, mesmo que parecesse ser modesto. E sai com quase nada. Um lixo.
Displicente, desrespeitoso, Caetano sub-tona, desafina, bate nas cordas de naylon de seu violão como um pedreiro desbasta tijolos e é acompanhada de uma banda de aprendizes, todos jovens moços, bem ao gosto do baiano.
O PT não fez bem em oficializar uma resposta a essa provocação de um artista decadente. Deveria, simplesmente, deixá-lo imerso em sua triste agonia do fim.
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Neruda, sempre
É proibido não transformar
sonhos em realidade;
não viver cada dia como se
fosse um último suspiro.
sonhos em realidade;
não viver cada dia como se
fosse um último suspiro.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
713 milhões para veicular propaganda ruim
Não mantenho esse espaço para comentar propaganda. Como estou no ramo e tenho agência de publicidade - duas, aliás - seria um tanto tendencioso eu tratar do tema comentando o que outros fazem. Mas, meu deus do céu, como é ruim a propaganda das Casas Bahia, o maior anunciante de varejo do país.
Tradicionalmente, o grupo varejista aplica 3% do faturamento previsto para o mês seguinte, em marketing. No ano passado a empresa comprou R$ 713,169 milhões em mídia, segundo o raking Agências & Anunciantes. Em qualquer quadrante, é muito dinheiro. Então por que essa massa monetária não produz boas idéias e sim barulho e propaganda ruim?
A conta publicitária das Casas Bahia pertence à Y&R, uma das maiores agências do mundo cujo braço brasileiro pertence ao midiático multi-empresário Roberto Justos. O relacionamento entre o cliente e a agência data de 1999, quando então NewcommBates substituiu a house Interjob, responsável pela comunicação do grupo nos 20 anos anteriores. Quando o publicitário Silvio Matos deixou a presidência da agência e o comando da estrutura montada, a pedido das Casas Bahia, na sede da varejista em São Caetano do Sul (SP), o empresário Roberto Justus assumiu a linha de frente da operação e o contato direto com os Klein, dono da rede, até que novos profissionais fossem contatados para a linha de frente da conta. A WPP, sócia de Justus na Y&R, teria pressionando o astro televisivo e publicitário nas horas vagas a aumentar a rentabilidade na conta das Casas Bahia, já que, apesar dos altos volumes investidos, a operação seria pouco lucrativa para a agência por causa dos grandes descontos obtidos na negociação com os veículos. O que fez Justos? Radicalizou uma fórmula básica e barata de fazer comerciais de varejo: a gritaria baseada na repetição. Uma releitura de Goebbels para vender geladeiras, fogões e móveis horríveis.
A gritaria e a repetição, presentes na propaganda da rede, reproduz, sem mediação, a locução de uma camelô de rua. O tom é estridente. O visual é primário. O volume final é muito alto. Incomoda.
Você poderá dizer "incomoda, mas vende". Essa não é a questão aqui. Não me interessa se ele vende ou não. Não sou acionista da rede. Estou aqui fazendo uma discussão ética. Vale tudo para vender? Sim, eles vendem, mas o fazem ao custo de produzir ruído, de dar um mal exemplo conceitual ("Quer pagar quanto?", a Lei de Gerson dos dias de hoje), de gerar, em escala, a repetição desse modelo de comunicação de camelô em todo o país. Sim, porque esse modelo que move uma estrutura milionária de produção pode ser copiado por qualquer um que tenha um PC velho em casa e uma câmera 3CCD. Não é preciso ser a Y&R para fazer propaganda ruim, não. Ela pode ser feita em qualquer quartinho. E certamente está sendo feita.
Por isso as redes de varejo de todo tamanho e de todo lugar repetem o modelo "Casas Bahia", gerando um ruído ensurdecedor no horário comercial da TV aberta. Não é de admirar que todos estão fugindo da TV para se encontrar na internet e em suas variáveis sempre novas.
Aliás, o barulho só não é total porque há uma exceção. A rede de varejo que eu atendo, o Grupo Formosa. Seguindo a linha de seu fundador, José Oliveira, o grupo parte da lógica de que, quando todo mundo grita, só será ouvido quem falar mais baixo.
Com apenas duas lojas e fazendo propaganda clean, vendendo conceito, o Formosa tornou-se um dos maiores grupos de varejo do país. Sem grito.
Tradicionalmente, o grupo varejista aplica 3% do faturamento previsto para o mês seguinte, em marketing. No ano passado a empresa comprou R$ 713,169 milhões em mídia, segundo o raking Agências & Anunciantes. Em qualquer quadrante, é muito dinheiro. Então por que essa massa monetária não produz boas idéias e sim barulho e propaganda ruim?
A conta publicitária das Casas Bahia pertence à Y&R, uma das maiores agências do mundo cujo braço brasileiro pertence ao midiático multi-empresário Roberto Justos. O relacionamento entre o cliente e a agência data de 1999, quando então NewcommBates substituiu a house Interjob, responsável pela comunicação do grupo nos 20 anos anteriores. Quando o publicitário Silvio Matos deixou a presidência da agência e o comando da estrutura montada, a pedido das Casas Bahia, na sede da varejista em São Caetano do Sul (SP), o empresário Roberto Justus assumiu a linha de frente da operação e o contato direto com os Klein, dono da rede, até que novos profissionais fossem contatados para a linha de frente da conta. A WPP, sócia de Justus na Y&R, teria pressionando o astro televisivo e publicitário nas horas vagas a aumentar a rentabilidade na conta das Casas Bahia, já que, apesar dos altos volumes investidos, a operação seria pouco lucrativa para a agência por causa dos grandes descontos obtidos na negociação com os veículos. O que fez Justos? Radicalizou uma fórmula básica e barata de fazer comerciais de varejo: a gritaria baseada na repetição. Uma releitura de Goebbels para vender geladeiras, fogões e móveis horríveis.
A gritaria e a repetição, presentes na propaganda da rede, reproduz, sem mediação, a locução de uma camelô de rua. O tom é estridente. O visual é primário. O volume final é muito alto. Incomoda.
Você poderá dizer "incomoda, mas vende". Essa não é a questão aqui. Não me interessa se ele vende ou não. Não sou acionista da rede. Estou aqui fazendo uma discussão ética. Vale tudo para vender? Sim, eles vendem, mas o fazem ao custo de produzir ruído, de dar um mal exemplo conceitual ("Quer pagar quanto?", a Lei de Gerson dos dias de hoje), de gerar, em escala, a repetição desse modelo de comunicação de camelô em todo o país. Sim, porque esse modelo que move uma estrutura milionária de produção pode ser copiado por qualquer um que tenha um PC velho em casa e uma câmera 3CCD. Não é preciso ser a Y&R para fazer propaganda ruim, não. Ela pode ser feita em qualquer quartinho. E certamente está sendo feita.
Por isso as redes de varejo de todo tamanho e de todo lugar repetem o modelo "Casas Bahia", gerando um ruído ensurdecedor no horário comercial da TV aberta. Não é de admirar que todos estão fugindo da TV para se encontrar na internet e em suas variáveis sempre novas.
Aliás, o barulho só não é total porque há uma exceção. A rede de varejo que eu atendo, o Grupo Formosa. Seguindo a linha de seu fundador, José Oliveira, o grupo parte da lógica de que, quando todo mundo grita, só será ouvido quem falar mais baixo.
Com apenas duas lojas e fazendo propaganda clean, vendendo conceito, o Formosa tornou-se um dos maiores grupos de varejo do país. Sem grito.
Sexta-feira, Outubro 30, 2009
Democratizar os meios de comunicação
O presidente Lula disse que a sociedade brasileira não precisa mais de interlocutores, referindo-se ao fato de não haver mais uma determinação férrea de resultados eleitorais a partir do que é dito, mostrado e publicado na imprensa.
Esse poder de decidir pela indução foi um dos fatores que fez dos grupos de comunicação, potências político-econômicas inabaláveis por quase um século. Abrigados sob a nomenclatura de "formadores de opinião", os barões da mídia foram a voz de indução da sociedade ao longo do século passado mas sentem esse poder se fragilizar em uma atualidade onde todos podemos ser mídia, fragmentando como nunca a audiência dos meios.
Há estudos sérios sobre o fenômeno e, de fato, as eleições mais recentes mostraram, em diversos pleitos especialmente na América Latina, a derrota do agendamento. Os fatos mostram que a mídia não tem mais o poder que tinha, de definir a priori quem ganha e quem perde uma eleição. A população pensa à margem dos meios.
O agendamento pode estar enfraquecido, mas os agendadores ainda ruminam nas sombras. A concentração dos meios de comunicação nas mãos de pouquíssimos contribui para a afinação do discurso hegemônico e para o fortalecimento desses grupos de mando, arraigando preconceitos e ajudando a criminalizar os movimentos sociais, na medida em que super expõe a versão das elites, ocultando a voz das classes subalternas.
No Brasil, aproximadamente 90% da mídia está nas mãos de 11 famílias e 2 igrejas. E o Estado, desde sempre, estabelece uma série de normas e leis que mantêm a permissividade a essa concentração, além de não assegurar o respeito aos limites legais estabelecidos no país. No Congresso Nacional, mais de 270 dos 513 parlamentares detêm hoje concessões de radiodifusão.
E ainda há quem ache que a democratização dos meios de comunicação não é uma bandeira importantes para garantir um horizonte republicano para o nosso país.
Esse poder de decidir pela indução foi um dos fatores que fez dos grupos de comunicação, potências político-econômicas inabaláveis por quase um século. Abrigados sob a nomenclatura de "formadores de opinião", os barões da mídia foram a voz de indução da sociedade ao longo do século passado mas sentem esse poder se fragilizar em uma atualidade onde todos podemos ser mídia, fragmentando como nunca a audiência dos meios.
Há estudos sérios sobre o fenômeno e, de fato, as eleições mais recentes mostraram, em diversos pleitos especialmente na América Latina, a derrota do agendamento. Os fatos mostram que a mídia não tem mais o poder que tinha, de definir a priori quem ganha e quem perde uma eleição. A população pensa à margem dos meios.
O agendamento pode estar enfraquecido, mas os agendadores ainda ruminam nas sombras. A concentração dos meios de comunicação nas mãos de pouquíssimos contribui para a afinação do discurso hegemônico e para o fortalecimento desses grupos de mando, arraigando preconceitos e ajudando a criminalizar os movimentos sociais, na medida em que super expõe a versão das elites, ocultando a voz das classes subalternas.
No Brasil, aproximadamente 90% da mídia está nas mãos de 11 famílias e 2 igrejas. E o Estado, desde sempre, estabelece uma série de normas e leis que mantêm a permissividade a essa concentração, além de não assegurar o respeito aos limites legais estabelecidos no país. No Congresso Nacional, mais de 270 dos 513 parlamentares detêm hoje concessões de radiodifusão.
E ainda há quem ache que a democratização dos meios de comunicação não é uma bandeira importantes para garantir um horizonte republicano para o nosso país.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Marketing político primário
Eles juram que não é erro de concordância, mas sim uma tradução literal de uma legenda homônima em inglês. Mas não deixa de ser curioso que no Brasil haja um partido que chama a si mesmo de "o" Democratas.
Furtivo e recordista em troca de nome (ex-Arena, ex-PDS e ex-PFL), "o" Democratas ocupou o horário nobre de todas as emissoras do Brasil na noite do dia 29 de outubro para tomar o nosso tempo e expor um discurso mal estruturado, raivoso e improdutivo para as intenções da legenda.
Uma grande lição de marketing político ruim e inofensivo.
O programa da legenda foi divido em três partes óbvias e lineares: a) balanço positivo de administrações locais dirigidas por partidários da legenda, com destaque para Brasília; b) tentativa de ligar uma política de grande alcance (no caso a expansão da telefonia celular e a expansão da internet) com a fase em que o DEM governava o país ao lado do PSDB; c) crítica ao governo federal e ao MST - que não disputa eleições - tentando ligar a imagem do movimento dos trabalhadores rurais sem terra, chamuscada pela imprensa, com o governo petista, que tem índices de aprovação, como diria um amigo meu, "albaneses" - uma referência aos índices eleitorais do líder "comunista" da Albânia, Enver Roxha, que vencia os pleitos com, por exemplo, 99,3% dos votos.
O tom, a forma, a retórica do programa do DEM imita o discurso do PT do passado.
Ver esse discurso ser entoado agora repete a perplexidade do personagem da série estadunidense Live in Mars, que dorme na atualidade e acorda, surpreendentemente, nos anos 70.
O DEM, por algum motivo inexplicável, acredita que, imitando o PT dos anos oitenta, chegará a ser PT um dia, ou seja, que fazendo "oposição" retórica em uma época pragmática, incorporará o espírito de oposição real que animava o PT em sua caminhada para ser o maior partido orgânico do país.
Os dirigentes do DEM esquecem que havia, nos anos oitenta, uma audiência social e um ambiente político que justificavam aquele discurso - uma espécie de mantra da base social que o PT movia.
Em uma das cenas do programa, um jovem anda de camisa aberta entre outros jovens, veste roupa verde e azul (alguém disse a eles que é assim que se produz identidade cromática de uma marca). Ocorre que o que sai da boca do jovem é uma bobagem total: sua fala quer fazer crer que a ação dos bandidos que roubaram a prova do ENEM é fruto da "incompetência" do governo. Um delito comum é conduzido à sua culminância política sem qualquer escala intermediária. Seria mais ou menos como dizer que os hackers que invadem conta bancária para roubar dinheiro de cidadãos de bem são todos filhos de Bill Gates, aquele "incompetente" que popularizou o computador com seu sistema operacional fácil de usar.
Quem pode acreditar nisso? Ninguém. Fazer pré-teste das peças? Bem, para isso seria necessário um profissional de marketing político. E isso o DEM não tem.
Digo isso porque, pelo amadorismo estrutural que apresentou, o programa, por certo, não foi feito por profissionais de marketing político. Não posso acreditar que o briefing tenha sido escrito por quem sabe ler pesquisa, já que a retórica do programa não leva à ampliação do espaço do partido no imaginário popular, mas, ao contrário, o leva para o gueto social dos que querem o fim do governo apenas porque não gostam dele. Não há "razão", não há "argumento", não há "convencimento". Há, apenas e tão somente, a crítica, o ataque, o vocifero.
Alguém precisa avisar ao DEM que esse tipo de discurso não provoca qualquer efeito prático a essa altura do século XXI e que, de costas para o futuro, será difícil ver em que direção está rumando. O abismo pode estar no próximo passo.
Furtivo e recordista em troca de nome (ex-Arena, ex-PDS e ex-PFL), "o" Democratas ocupou o horário nobre de todas as emissoras do Brasil na noite do dia 29 de outubro para tomar o nosso tempo e expor um discurso mal estruturado, raivoso e improdutivo para as intenções da legenda.
Uma grande lição de marketing político ruim e inofensivo.
O programa da legenda foi divido em três partes óbvias e lineares: a) balanço positivo de administrações locais dirigidas por partidários da legenda, com destaque para Brasília; b) tentativa de ligar uma política de grande alcance (no caso a expansão da telefonia celular e a expansão da internet) com a fase em que o DEM governava o país ao lado do PSDB; c) crítica ao governo federal e ao MST - que não disputa eleições - tentando ligar a imagem do movimento dos trabalhadores rurais sem terra, chamuscada pela imprensa, com o governo petista, que tem índices de aprovação, como diria um amigo meu, "albaneses" - uma referência aos índices eleitorais do líder "comunista" da Albânia, Enver Roxha, que vencia os pleitos com, por exemplo, 99,3% dos votos.
O tom, a forma, a retórica do programa do DEM imita o discurso do PT do passado.
Ver esse discurso ser entoado agora repete a perplexidade do personagem da série estadunidense Live in Mars, que dorme na atualidade e acorda, surpreendentemente, nos anos 70.
O DEM, por algum motivo inexplicável, acredita que, imitando o PT dos anos oitenta, chegará a ser PT um dia, ou seja, que fazendo "oposição" retórica em uma época pragmática, incorporará o espírito de oposição real que animava o PT em sua caminhada para ser o maior partido orgânico do país.
Os dirigentes do DEM esquecem que havia, nos anos oitenta, uma audiência social e um ambiente político que justificavam aquele discurso - uma espécie de mantra da base social que o PT movia.
Em uma das cenas do programa, um jovem anda de camisa aberta entre outros jovens, veste roupa verde e azul (alguém disse a eles que é assim que se produz identidade cromática de uma marca). Ocorre que o que sai da boca do jovem é uma bobagem total: sua fala quer fazer crer que a ação dos bandidos que roubaram a prova do ENEM é fruto da "incompetência" do governo. Um delito comum é conduzido à sua culminância política sem qualquer escala intermediária. Seria mais ou menos como dizer que os hackers que invadem conta bancária para roubar dinheiro de cidadãos de bem são todos filhos de Bill Gates, aquele "incompetente" que popularizou o computador com seu sistema operacional fácil de usar.
Quem pode acreditar nisso? Ninguém. Fazer pré-teste das peças? Bem, para isso seria necessário um profissional de marketing político. E isso o DEM não tem.
Digo isso porque, pelo amadorismo estrutural que apresentou, o programa, por certo, não foi feito por profissionais de marketing político. Não posso acreditar que o briefing tenha sido escrito por quem sabe ler pesquisa, já que a retórica do programa não leva à ampliação do espaço do partido no imaginário popular, mas, ao contrário, o leva para o gueto social dos que querem o fim do governo apenas porque não gostam dele. Não há "razão", não há "argumento", não há "convencimento". Há, apenas e tão somente, a crítica, o ataque, o vocifero.
Alguém precisa avisar ao DEM que esse tipo de discurso não provoca qualquer efeito prático a essa altura do século XXI e que, de costas para o futuro, será difícil ver em que direção está rumando. O abismo pode estar no próximo passo.
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